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Benefícios clínicos do uso da solução aditiva para plaquetas.


MAIO 23, 2023

As soluções aditivas de plaquetas (PAS, do inglês Platelet Additive Solutions) foram desenvolvidas na década de 1980 a fim de reduzir a quantidade de plasma contida em cada concentrado de plaquetas (CP), visto que o plasma contém enzimas que podem levar a lesões de estoque nas plaquetas. O PAS também foi utilizado para prover capacidade extra de tamponamento, o que é importante quando as plaquetas são armazenadas em bolsas impermeáveis à troca gasosa, o que geralmente ocorre no processo de aliquotagem (validade em condições usuais, sem o PAS, de 4 horas).

Atualmente, além dos benefícios iniciais, que motivaram o desenvolvimento desta solução citamos: a) redução da incidência de reações transfusionais como a alérgica, a febril não hemolítica (RFNH), a lesão pulmonar aguda relacionada com a transfusão (TRALI, do inglês Transfusion Related Acute Lung Injury) e a reação hemolítica mediada pela transmissão passiva de anticorpos anti-A e anti-B na transfusão de plaquetas; b) redução da exposição a doadores nas plaquetas produzidas pela metodologia pool de buffy-coat; c) coleta de uma maior quantidade de plaquetas de doadores de aférese, mesmo em doadores com menor volemia; d) disponibilização de uma maior quantidade de plasma para a indústria de hemoderivados.

O PAS pode ser adicionado ao CP durante o processo de coleta das plaquetas por aférese, diretamente na bolsa onde o produto está sendo coletado, de forma que não terá contato com o doador. Assim, há necessidade de coleta de uma menor quantidade de plasma do doador, o que permite a coleta de uma maior quantidade de plaqueta e o fracionamento em 2 ou 3 doses terapêuticas para um adulto, o que aumenta a eficiência do processo, reduz custos e, se o mesmo paciente receber as alíquotas desta doação, reduz a exposição a doadores, a aloimunização contra anticorpos do sistema leucocitário humano (HLA) e plaquetário humano (HPA) o que consequentemente reduz o risco de refratariedade imune à transfusão de plaquetas e o risco infeccioso residual transfusional.

Outra opção é a adição do PAS no momento da produção do pool de plaquetas pela metodologia camada leucoplaquetária (BC do inglês, buffy-coat). Nesta metodologia, há necessidade de se usar uma bolsa de plasma ou a quantidade equivalente de PAS para lavar cada uma das bolsas de BC durante a produção do pool, antes da centrifugação para a produção do CP, visto que o BC é muito viscoso.

Nas duas situações, há uma redução da quantidade de plasma em cada produto plaquetário com redução das reações transfusionais.

Sabemos que a reação alérgica é causada pela interação antígeno (proteína plasmática do doador) e anticorpo (receptor) e que pode ser intensificada pelas interleucinas e citocinas contidas no plasma. Se temos menos plasma temos menos proteína (antígeno) e menos citocinas e interleucinas, consequentemente, menos reação alérgica.

Já a reação febril não hemolítica é causada pela interação de anticorpos anti-HLA, anti-HPA e anti-HNA (antígeno neutrofílico humano) presentes no receptor contra os leucócitos e plaquetas do doador. Ela também pode ser causada por citocinas e interleucinas pró-inflamatórias produzidas pelos leucócitos durante o armazenamento. Seu mecanismo de prevenção mais eficaz e aceito é a desleucocitação precoce dos CP, entretanto, mesmo utilizado estes produtos uma parcela dos pacientes ainda apresenta RFNH. Esse grupo pode se beneficiar do uso de plaquetas ressuspensas em PAS que contêm uma menor proporção de plasma.

A TRALI imune mediada decorre da interação de anticorpos anti-HLA ou anti-HNA presentes no plasma do doador com o antígeno cognato presente no receptor. Se temos menos plasma nas plaquetas temos menos TRALI imune-mediada relacionada com a transfusão de plaquetas.

A reação hemolítica mediata pela transmissão passiva de anticorpos anti-A e anti-B é uma entidade clínica pouco pensada e diagnosticada na prática médica e decorre da transfusão de plaquetas heterogrupo, especialmente do grupo O em indivíduos não O. Sabe-se que doadores O produzem uma maior quantidade de isohemoaglutinina anti-A, anti-B e anti-AB do que os indivíduos A ou B produzem de anti-B ou anti-A, respectivamente. Entretanto, indivíduos dos grupos O, A e B podem ser alto respondedores e produzir elevados títulos de isohemoaglutininas capazes de causar reação hemolítica, mesmo após a transfusão de uma plaqueta randômica derivada do sangue total (40 a 70 mL de plasma) e, mais frequentemente, após a transfusão de plaquetas por aférese (200 a 250 mL de plasma). Neste sentido, a redução em 65% do volume de plasma acarreta redução proporcional em 65% da quantidade do anticorpo, o que reduz de modo significativo o risco de hemólise por transmissão passiva de anticorpos. Outra vantagem seria a inversão na ordem de preferência da transfusão de plaquetas, ou seja, considerando a realidade atual, de transfusão de plaquetas com 100% de plasma, em indivíduos não O, prefere-se a utilização de plaquetas não O do que O. Por exemplo, a 1ª opção de transfusão de CP em um paciente A é uma plaqueta A. Na indisponibilidade dessa, a 2ª opção é a transfusão de plaquetas AB, entretanto, raramente essa CP está disponível e acabamos transfundindo plaquetas B (3ª opção). Nestes casos, há um menor incremento plaquetário visto que aproximadamente 20% das plaquetas heterogrupo são imediatamente removidas da circulação sanguínea, no nosso exemplo por anticorpos pré-formados anti-B, já presentes no plasma de um paciente A. Se tivéssemos disponível CP em PAS, o CP O poderia ser considerado “universal” e utilizado clinicamente com segurança e redução significativa dos riscos de reação hemolítica além de melhor rendimento pós transfusional visto que as plaquetas O não expressam anticorpos do sistema ABO e, por isso, têm incremento e sobrevida usual à da transfusão de CP isogrupo.

Considerando todas as vantagens da utilização de plaquetas ressuspensas em PAS esperamos que, em breve, o número de serviços que utilizam esta tecnologia aumente no Brasil o que certamente acarretará benefícios clínicos para os nossos pacientes.


Até a próxima!

Equipe erytro.


Apoio técnico científico da Fresenius Kabi para a sua realização.


Bibliografia consultada:

  1. van der Meer PF, de Korte D. Platelet Additive Solutions: A Review of the Latest Developments and Their Clinical Implications. Transfus Med Hemother. 2018 Apr;45(2):98-102. DOI: 10.1159/000487513. Epub 2018 Mar 9. PMID: 29765292; PMCID: PMC5939701.

  2. van der Meer PF. PAS or plasma for storage of platelets? A concise review. Transfus Med. 2016 Oct;26(5):339-342. DOI: 10.1111/tme.12325. Epub 2016 Jun 7. PMID: 27273164.

  3. Weisberg SP, Shaz BH, Tumer G, et al. PAS-C platelets contain less plasma protein, lower anti-A and anti-B titers, and decreased HLA antibody specificities compared to plasma platelets. Transfusion. 2018 Apr;58(4):891-895. DOI: 10.1111/trf.14523. Epub 2018 Feb 22. PMID: 29473178.

  4. Tynuv M, Flegel WA. Quality improvement with platelet additive solution for safer out-of-group platelet transfusions. Immunohematology. 2019 Sep;35(3):108-115. PMID: 31621370; PMCID: PMC6816025

  5. Rajashekaraiah V, Rajanand MC. Platelet storage: Progress so far. J Thromb Thrombolysis. 2023 Jan;55(1):9-17. DOI: 10.1007/s11239-022-02716-3 Epub 2022 Oct 31. PMID: 36315304.

  6. Brochura Solução InterSol® – Fresenius Kabi

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